Antes de uma partida entre Bahia e Grêmio, em 2017, as torcedoras tricolores Edna Matos e Dandara Matos, mãe e filha, foram surpreendidas por marcações nas redes sociais em uma publicação de cunho racista.
A montagem fotográfica comparava Edna e Dandara, torcedoras negras do Esquadrão, a torcedoras brancas do Grêmio. O caso ganhou repercussão midiática e a postagem foi compartilhada diversas vezes na internet, incluindo uma nova circulação em 2023, antes do confronto entre as duas equipes pelas quartas de final da Copa do Brasil daquela temporada. Relembre abaixo:
Na época, o Bahia colocou o departamento jurídico do clube à disposição para ajudar mãe e filha no caso. “O departamento jurídico tricolor também está à disposição e o Bahia oferecerá todo suporte necessário”, informou o Tricolor na ocasião, por meio das redes sociais.
Pouco mais de nove anos depois, o caso teve um desfecho na Justiça. Em junho de 2026, o juiz Moacyr Pitta Lima, titular da 9ª Vara Criminal de Salvador, condenou o réu a dois anos e quatro meses de reclusão. Cabe recurso à sentença.
A pena foi substituída por prestação de serviços à comunidade e pelo pagamento de três salários mínimos a instituições beneficentes que atuam no combate ao racismo, além do pagamento de multa e das custas processuais.
Edna falou sobre os efeitos do racismo e da discriminação na vida de pessoas negras, que vão além da esfera jurídica.
“Na época, eu estava em Lisboa com minha filha e o impacto inicial foi uma sensação muito ruim”, lamentou Edna Matos.
Dandara, que é pesquisadora, contou que o episódio teve profundos reflexos em sua saúde mental e impacto direto em seu trabalho.
“O impacto psicológico em minha vida foi terrível. Precisei fazer terapia e me afastar do processo jurídico para conseguir voltar a escrever”, afirmou.
Para Edna, decisões como essa são importantes porque reconhecem oficialmente a violação sofrida pela vítima e ajudam a desestimular práticas discriminatórias.
“Essas decisões são importantes porque reconhecem, oficialmente, que houve um crime. A vítima teve seus direitos violados. Não foi piada nem opinião. Sentenças condenatórias desestimulam as práticas discriminatórias, uma vez que mostram que elas serão punidas”, afirmou Edna Matos.
O Estatuto da Igualdade Racial é um marco legal na promoção da igualdade de oportunidades para a população negra, assegurando a proteção dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos, além do enfrentamento à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.
“O Estatuto da Igualdade Racial não prevê crimes, mas uma série de providências e de políticas afirmativas em benefício da igualdade e da promoção da garantia de progresso das comunidades negras”, explicou o desembargador Lidivaldo Reaiche, presidente da Comissão Permanente de Igualdade, Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos Humanos do Tribunal de Justiça da Bahia (CIDIS/TJBA).
Para Edna, a condenação representou mais do que o encerramento de uma etapa judicial.
“O momento em que lemos a decisão foi emocionante. Não apenas para nós duas, mas para os amigos e nossa família que, embora sofressem juntos, nos apoiaram em todos os sentidos, para que tivéssemos forças para seguir adiante. A sensação de que foi feita a justiça é muito boa!”, disse.
Fonte:Bahia Notícias Foto:Divulgação

